Modelos fundamentais são comumente enquadrados como ferramentas tecnológicas avançadas ou produtos comerciais. Este artigo avança uma perspectiva diferente: modelos fundamentais devem ser entendidos como ativos estratégicos embutidos em infraestruturas complexas de capital, computação, dados e controle institucional.

A partir da economia política, o artigo argumenta que a escala, a intensidade de capital e as estruturas de dependência associadas a modelos fundamentais produzem assimetrias de poder duradouras que não podem ser endereçadas apenas por regulação no nível de aplicação. Ao reenquadrar modelos fundamentais como ativos infraestruturais, o artigo destaca os limites das abordagens atuais de governança e delineia implicações-chave para capacidade estatal, soberania e supervisão democrática.

1. Introdução: Além da narrativa da ferramenta

Debates públicos e regulatórios sobre inteligência artificial continuam a enquadrar modelos fundamentais principalmente como artefatos tecnológicos: sistemas que podem ser avaliados, regulados ou restringidos de acordo com seus outputs e aplicações observáveis.

Esse enquadramento implicitamente trata os modelos como instrumentos neutros cujos riscos emergem principalmente no ponto de uso.

Essa perspectiva obscurece uma transformação central. Modelos fundamentais não são meramente ferramentas embutidas em produtos; eles são cada vez mais ativos infraestruturais cuja criação, propriedade e operação reorganizam poder econômico, capacidade institucional e autoridade de governança.

Sua importância reside menos em qualquer aplicação específica do que nas dependências estruturais que geram entre setores e jurisdições.

Do ponto de vista da economia política, a questão central não é se modelos fundamentais são poderosos, mas como esse poder é produzido, acumulado e governado.

2. Ativos estratégicos na economia política

Na economia política clássica e nos estudos de segurança, um ativo é considerado estratégico quando apresenta uma combinação das seguintes características:

  • Altos custos fixos e irrecuperáveis
  • Fortes economias de escala
  • Substituibilidade limitada
  • Efeitos de rede e coordenação
  • Capacidade de gerar dependência
  • Relevância para interesses do Estado e funções públicas

Modelos fundamentais atendem a todos esses critérios.

Os custos associados ao treinamento de modelos de fronteira (computação, energia, trabalho de engenharia, aquisição de dados e infraestrutura) são cada vez mais proibitivos.

À medida que a escala se torna um determinante primário do desempenho do modelo, a entrada competitiva se estreita estruturalmente, favorecendo um pequeno número de atores capazes de mobilizar capital e infraestrutura extraordinários.

Isso desloca os modelos fundamentais do domínio de mercados competitivos de software para o reino de ativos econômicos estratégicos, comparáveis não a aplicações, mas a sistemas de compensação financeira, redes de energia ou backbones de telecomunicações.

3. A pilha de modelos fundamentais como estrutura de governança

Entender modelos fundamentais como ativos estratégicos exige ir além do modelo em si para examinar a pilha de infraestruturas das quais ele depende. Essa pilha pode ser decomposta analiticamente em quatro camadas interdependentes:

  • Camada Física:

Semicondutores, sistemas de energia, data centers e cadeias globais de suprimentos.

  • Camada Infraestrutural:

Plataformas de cloud, ambientes de computação distribuída e sistemas de orquestração.

  • Camada do Modelo:

Processos de treinamento, arquiteturas, pesos e fine-tuning.

  • Camada de Acesso:

APIs, produtos, termos de licenciamento, restrições de implantação e políticas de uso.

Cada camada constitui um ponto de estrangulamento de governança. O controle sobre a pilha permite que atores não apenas inovem, mas moldem quem pode participar, em que condições e a que custo.

Governança, nesse sentido, é exercida não principalmente por meio da lei, mas por decisões arquiteturais e contratuais embutidas em sistemas sociotécnicos.

4. Escala, concentração e poder estrutural

A economia dos modelos fundamentais exibe fortes retornos crescentes de escala. Melhorias de desempenho estão estreitamente ligadas a poder computacional, volume e qualidade de dados e capacidade de otimização. Essa dinâmica produz três resultados estruturais:

  • Concentração de mercado:

Pequeno número de empresas domina o treinamento e a implantação de modelos.

  • Integração vertical:

Controle sobre as camadas de computação, cloud e modelo se consolida dentro das mesmas organizações.

  • Criação de dependência:

Atores a jusante — startups, governos e instituições — tornam-se dependentes de provedores a montante para acesso a capacidades fundamentais.

Do ponto de vista da governança, isso importa porque a competição sozinha não consegue corrigir essas assimetrias.

Mesmo onde múltiplas empresas existem, a dependência compartilhada de restrições infraestruturais semelhantes reproduz concentração, em vez de mitigá-la.

Acordos recentes entre empresas nominalmente concorrentes, como a parceria de IA entre Apple e Google, ilustram como restrições infraestruturais podem alinhar interesses estratégicos, borrando a fronteira entre competição e coordenação na camada fundamental.

5. Governança além da regulação

A maioria das iniciativas atuais de governança de IA foca na regulação em nível de aplicação: classificação de riscos, avaliações de segurança, requisitos de transparência e monitoramento pós-implantação. Embora necessárias, essas abordagens deixam a economia política dos modelos fundamentais praticamente intocada.

Governança no nível infraestrutural envolve perguntas diferentes:

  • Quem é capaz de treinar modelos fundamentais em escala?
  • Quem controla o acesso a pesos, APIs e direitos de implantação?
  • Quem pode auditar ou contestar o comportamento do modelo?
  • Quem arca com riscos sistêmicos decorrentes da implantação ampla?

Cada vez mais, as respostas a essas perguntas são determinadas dentro de estruturas de governança corporativa, não em instituições públicas.

6. Capacidade estatal e dependência de modelos

A natureza estratégica dos modelos fundamentais tem implicações diretas para a capacidade do Estado. Governos enfrentam um descompasso crescente entre suas ambições regulatórias e sua dependência operacional de infraestrutura de IA controlada pelo setor privado.

Essa dependência é particularmente pronunciada fora das economias centrais que hospedam infraestrutura de computação e cloud em larga escala. Para muitos Estados, a participação na economia de IA assume a forma de consumo, fine-tuning ou provisão de dados, em vez de desenvolvimento fundamental.

Do ponto de vista da economia política, essa dinâmica se assemelha a formas anteriores de dependência tecnológica, agora mediadas por modelos em vez de máquinas ou energia. O resultado é uma assimetria emergente entre Estados que governam infraestruturas de IA e aqueles que apenas as utilizam.

7. Repensando políticas: infraestrutura, não aplicações

Se modelos fundamentais são ativos estratégicos, abordagens de governança devem mudar em conformidade. Isso não implica nacionalização imediata ou controle centralizado, mas requer pensamento de política no nível de infraestrutura.

Direções-chave de governança incluem:

  • Obrigações de transparência ligadas à escala de treinamento e uso de computação
  • Mecanismos institucionais de supervisão no nível de modelo e infraestrutura
  • Investimento público ou semipúblico em capacidades fundamentais
  • Separação entre propriedade do modelo e poder de implantação a jusante
  • Coordenação internacional sobre acesso à computação e padrões

Essas não são correções técnicas, mas desafios de desenho institucional que refletem o papel estratégico das infraestruturas de IA nas economias contemporâneas.

8. Conclusão: da inovação ao desenho institucional

Gerir a inovação ou mitigar riscos isolados já não dá conta de todos os desafios colocados pelos modelos fundacionais. Hoje, o verdadeiro desafio é alcançar alinhamento institucional diante de novos ativos estratégicos que concentram poder, geram dependência e reconfiguram as relações entre Estado e mercado.